Por esses dias estive pensando muito no quão pessoal é a escolha de emigrar/imigrar. Qualquer escolha, na verdade. Mas percebi que os que querem e têm sucesso têm algumas características comuns. Por exemplo, é possível listar desvantagens que os amigos imigrados comentam:
- Celular pode se tornar um inferno. A maioria das contas básicas pagam pra efetuar e RECEBER chamadas, é preciso conversar muito na operadora de telefonia pra fechar um bom plano.
- Direitos trabalhistas não são tão paternalistas como no Brasil: é fácil contratar e demitir. Férias longas são um luxo. Adicional de férias, décimo terceiro, etc... vão deixar saudades se no Brasil você era CLT.
- Bancos: nem preciso citar o atraso tecnológico comparado ao nosso SPB, sistema de pagamentos brasileiro, do qual todos os bancos fazem parte. É um dos melhores DO MUNDO.
Pra contestar as afirmações acima, eu defendo nossa Province du Québec:
- No começo a telefonia celular no Brasil também era assim. E provavelmente a maneira como a sociedade lá está organizada torna as pessoas menos dependentes do bendito aparelhinho, o que justifica preços maiores. De todo modo, os interessados conseguem bons planos.
- Aqui no Brasil poucos são CLT. Eu fui por um ou dois anos e ganhava bem pouco nessa época. Então estou desacostumada aos favores que nos concedeu tio Getúlio. E mais: no Québec as pessoas não se matam de trabalhar como aqui. O trabalho faz parte da vida mas não é a razão de viver. Assim... não tem que ser nem mamata nem inferno.
- A tecnologia bancária no Brasil evoluiu principalmente pra controlar e conter crimes e fraudes e não simplesmente pensando no lindo cliente. Deve ser bem mais legal morar num lugar onde o conceito de sacar a grana de um banco e levar pra outro pode ser posta em prática, pois sugere o quanto que a criminalidade é baixa.
Além dessas defesas da minha futura província, eu elenco mais motivos em que meus valores já não conseguem mais seguir os contornos do Brasil:
- Detesto pessoas que não entendem o espaço individual: te batem e dão trancos ao andar pelas ruas, baforam cigarro na sua cara em qualquer lugar, grudam bem atrás de você na fila, falam cutucando, pegando, sem nem mesmo te conhecer, etc.
- Não quero ter que pagar por toda a educação dos meus filhos e mesmo assim não conseguir garantir a eles a entrada numa boa faculdade.
- Não quero me preocupar com criminalidade da maneira como fazemos aqui no Brasil, em particular no Rio, já tendo estratagemas de defesas tão arraigados que achamos algumas coisas "normais".
- Não quero passar a maior parte do ano escaldando sob o sol.
- Não quero me matar de trabalhar pra ter uma vida digna, nem ter que me concentrar nas profissões de maior valor $$ em detrimento do que gosto de fato.
- Não quero ignorar a existência do preconceito. Quero estar num lugar que aceita que ele existe e que cria planos reais de mitigação contra preconceitos, desde àqueles contra a mulher até aqueles reservados à minorias.
- Não quero a igreja interferindo na ciência, política e vida cotidiana. Isso é uma decisão por demais pessoal pra ser imposta como é feito no Brasil: não falta feriado cristão, mas nenhum dia judaico ou muçulmano é feriado de fato. Melhor que os feriados fossem "dia na nação", "dia da natureza", etc. Aliás, a harmonia intercultural e interreligiosa no Québec é emocionante!
- Quero paz...
Enfim, valores são sempre muito pessoais. Um subconjunto acaba casando com o de outras pessoas e assim formamos as comunidades, os grupos que querem viver juntos. Sempre que me lembro disso me sinto feliz com a minha escolha. E ansiosa, que não chega logo esse pedido de exames!
By the way, deadline inicial é apenas em outubro, que é o de 6 meses... espero que venha antes!
Bisous